A volta de uma grande estrela ao octógono sempre gera uma expectativa à altura de um nome de peso. É a chance de rever o astro em ação, de presenciar uma parte da história ser escrita e, principalmente, notar se ele ainda é capaz de repetir as apresentações que estava acostumado a exibir para o público. Nesta sexta, enfim, um dos momentos mais aguardados do ano irá acontecer: o retorno de Ronda Rousey, no UFC 207, em Las Vegas, contra Amanda Nunes, atual campeã do peso-galo, depois de um ano e um mês sem pisar no cage.

Ronda Rousey não ficou longe do octógono por problemas médicos, tampouco por falta de oponentes. A atleta se retirou de cena após ser nocauteada por Holly Holm, em novembro do ano passado, em duelo que lhe custou o título da categoria. O “hype” acerca de “Rowdy” se dá pela expectativa em torno de seu comportamento após uma derrota acachapante que – aparentemente – abalou seu psicológico. A pergunta da vez é: como a americana irá reagir depois de perder sua invencibilidade no MMA e a aura de imbatível, incorporada desde que começou a enfileirar adversárias, em 2011.

Psicólogo do esporte, Jorge Luis Marujo acredita que a maneira contundente como se desenhou a derrota de Ronda Rousey contribuiu para tornar o resultado mais doloroso – a despeito da perda do cinturão.

É comum passar na cabeça a possibilidade de tomar um golpe igual ou de perder de maneira enfática. Acho que isso pode estar passando pela cabeça dela. A Ronda vai enfrentar a Amanda, a atual campeã, uma atleta que machuca bastante e é muito forte. Se a Ronda não estiver gerenciando essa carga emocional, afetiva, vai chegar em desvantagem no fator de preparação mental, de autoconfiança
Jorge Luis Marujo, psicólogo do esporte

– A Ronda é uma pessoa resiliente, tem um histórico de respeito, é uma profissional experiente, com cartel excelente. Essa derrota abalou? Com certeza, atleta nenhum gosta de perder. Todos os grandes que perderam de forma traumática, como Anderson, José Aldo, Lyoto (contra Jones), sentiram o impacto, o que causa influência no estado emocional e gera ansiedade no treinamento. É comum passar na cabeça a possibilidade de tomar um golpe igual ou de perder de maneira enfática. Acho que isso pode estar passando pela cabeça dela. A Ronda vai enfrentar a Amanda, a atual campeã, uma atleta que machuca bastante e é muito forte. Se a Ronda não estiver gerenciando essa carga emocional, afetiva, vai chegar em desvantagem no fator de preparação mental, de autoconfiança. Se ela não estiver organizada emocionalmente, confiante, vai ser difícil. Não me arrisco a dizer que ela vença. Há um trauma físico e emocional. Ambos têm que ser trabalhados. O físico é visível, você olha e se recupera; o emocional, não. É o invisível aos olhos dos outros. O atleta tem que reconhecer a derrota para se reinventar. Ela precisa olhar para dentro de si e elaborar esse trauma, entender, aceitar e partir para uma nova tentativa, uma nova forma de enxergar a situação – explicou Marujo, que trabalha com a peso-palha Jéssica Bate-Estaca, em entrevista ao Combate.com.

Depois que perdeu para Holm, Ronda Rousey procurou se isolar. Desapareceu do noticiário, escondeu o rosto ao desembarcar no aeroporto quando voltava para os Estados Unidos – a derrota para Holm se deu na Austrália – e concedeu raríssimas entrevistas. Este período, segundo Antônio Vargas, também psicólogo do esporte, pode ser encarado como uma espécie de luto.

– Cada pessoa reage de uma forma à derrota. Ela perdeu, pode ter soado como um luto. Tem quem se afaste, quem prefira aparecer um pouco mais. O importante é que ela tenha conseguido aceitar a condição de ter perdido neste período, entender que não é imbatível. A primeira coisa que temos que trabalhar é que o nocaute é uma situação que poderia ter acontecido a favor ou contra. Isso faz parte do esporte. Não é o nocaute que vai apagar a história que ela construiu no esporte. No início, é difícil ver com naturalidade, até porque tem foto, vídeo, a mídia reforça essa imagem da derrota, ainda mais por ser uma atleta de ponta. Abre a cicatriz que ainda está purgando. Não vamos mudar a história e sim a forma como ela vai ver a derrota. O nocaute faz parte do esporte. Quando você perde ou ganha, os holofotes estão em cima de você. Quando você está consciente disso, tira a ansiedade de querer dar a volta por cima e outros elementos que possam ser prejudiciais.

A melhor forma de ser vencedor é reconhecer a derrota. Quando isso acontece, você sai da zona de conforto, vê o que precisa evoluir. O nocaute tem um aspecto moral muito forte, é diferente de algumas derrotas por finalização. O nocaute soa como desmoralizante
Antônio Vargas, psicólogo do esporte

Vargas destaca que Ronda Rousey – além de aceitar a derrota pela primeira vez na carreira – precisa se reinventar. O revés, segundo ele, é uma forma de alertar para os pontos que podem ter custado o cinturão.

– A melhor forma de ser vencedor é reconhecer a derrota. Quando isso acontece, você sai da zona de conforto, vê o que precisa evoluir. O nocaute tem um aspecto moral muito forte, é diferente de algumas derrotas, soa como desmoralizante. O atleta, seja qual for, tem que saber lidar com a derrota e, quando aprende a perder, está mais próximo de aprender a ganhar. A Ronda mora em um país onde a psicologia do esporte possui notoriedade, acredito que haja profissionais de ponta com ela. Caso não tenha, é importante que nesse período ela tenha se reinventado, absorvido o impacto da derrota, uma imagem nova, que ela nunca tinha se deparado antes. Vejo duas opções: ou vai se tornar uma pressão para recuperar o prestígio, o que pode se tornar um ponto de ansiedade, ou ela vai apresentar coisas novas, mostrando que saiu dessa zona de conforto.

Coach profissional, Aline Carvalho, que trabalha com atletas do UFC como Thiago Marreta, Antônio Cara de Sapato e Rani Yahya, afirma que a superação é uma das marcas da personalidade de Ronda Rousey. Ela declara que “Rowdy” vai transformar a dor para dar a volta por cima.

– Lendo a biografia da Ronda, muita coisa fica mais fácil de ser compreendida. Eu não a considero instável, a considero estrategista, porque a Ronda não é de falar muito em momento de recuperação. Essa derrota teve um significado pessoal, mexeu com ela, não é questão de cinturão em si. Ela não contava com um plano B. Ela nunca pensou em perder, em se preparar para uma possível derrota. Mais de ano depois dessa luta, até pelas poucas entrevistas que deu, lutar não é mais a coisa mais importante. É uma lutadora, conquistou grandes coisas, mas deixou claro que não faz isso contra alguém, faz por ela. Essa superação pessoal é uma das coisas mais marcantes da personalidade da Ronda, o que faz com que ela venda muito e conquiste o público. Eu acredito que ela está em um momento confiante e, quando isso acontece com um atleta, ele se torna perigoso. A Amanda pode esperar de tudo, desde uma pessoa que vai dar seu melhor e renascer quanto uma pessoa que está cumprindo o contrato por obrigação. O efeito surpresa em relação a Ronda estar fazendo essa luta será muito importante para o evento. Acredito que ela esteja com um apoio, uma estrutura muito forte por trás dela, sem falar da preparação física. Não é só questão física, é uma questão emocional.  A Ronda, agora, sabe como é a derrota, sabe lidar melhor com isso e usou a dor a seu favor. É uma coisa praticamente superada. Aceitar fazer o evento novamente pode ser questão de cumprir contrato, mas ela tem a necessidade de provar a ela mesma que consegue.

O canal Combate transmite o evento nesta sexta, ao vivo e com exclusividade, a partir de 22h30. O Combate.com acompanha todos os detalhes do show em tempo real, além de exibir os dois primeiros duelos do card preliminar.

UFC 207
30 de dezembro em Las Vegas, EUA
CARD PRINCIPAL (a partir de 1h30, horário de Brasília)
Peso-galo: Amanda Nunes x Ronda Rousey
Peso-galo: Dominick Cruz x Cody Garbrandt
Peso-galo: TJ Dillashaw x John Lineker
Peso-meio-médio: Dong Hyun Kim x Tarec Saffiedine
Peso-mosca: Louis Smolka x Ray Borg
CARD PRELIMINAR (a partir de 22h30, horário de Brasília)
Peso-meio-médio: Johny Hendricks x Neil Magny
Peso-médio: Antônio Cara de Sapato x Marvin Vettori
Peso-meio-médio: Mike Pyle x Alex Garcia
Peso-meio-médio: Alex Cowboy x Tim Means
Peso-meio-médio: Brandon Thatch x Niko Price

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