ILUSTRAÇÃO: PAULA CARDOSO

Oclima esquentou entre ruralistas e o novo governo em formação. Entre acusações de ingerência indevida e despreparo, sobrou até para espécies da fauna. “Já vi muito pavão virar espanador” foi uma das frases que circularam no WhatsApp de produtores rurais que tentam influenciar na formação do ministério de Bolsonaro. Pavão, no caso, é um futuro ministro.

Algumas semanas antes do primeiro turno, o então candidato a presidente da República Jair Bolsonaro passou a ser visto, frequentemente, ao lado de Luiz Antônio Nabhan Garcia, presidente da União Democrática Ruralista, a UDR. Sua presença era tão constante que seu nome apareceu na imprensa como possível futuro ministro da Agricultura. Questionado por jornalistas, o ruralista nunca negou que pleiteava o posto. Mas o desejo pareceu distante já na primeira entrevista que Bolsonaro concedeu no Hotel Windsor, na Barra da Tijuca, quatro dias após a votação do primeiro turno. Naquele dia, Bolsonaro, depois se reunir com a bancada eleita pelo PSL, anunciou que três nomes estavam confirmados para o seu ministério, caso fosse eleito no segundo turno: o do economista Paulo Guedes, como ministro da Economia; o do

para a Defesa, e o de Onyx Lorenzoni, para a Casa Civil. Quando um repórter perguntou se Nabhan Garcia seria o ministro da Agricultura, Bolsonaro disse que não.

Começou aí uma disputa acirrada no setor ruralista em torno da indicação do novo ministro. Parte do agronegócio, mais industrializado, como os produtores de soja, de cana e papel e celulose, não aceita o nome de Garcia para o ministério. Já a turma mais próxima à UDR, torce por sua indicação. Após a vitória de Bolsonaro no segundo turno, a briga se acentuou. Nabhan Garcia, diante da resistência ao seu nome, tentou emplacar um aliado para o ministério, o deputado Jerônimo Goergen, do PP do Rio Grande do Sul. Disse se tratar de uma escolha dos ruralistas. Mas a indicação foi imediatamente desautorizada por Lorenzoni.

Inconformado, o presidente da UDR deu mostras de que não está disposto a desistir da luta. A turma ligada a ele, representada principalmente pelos pecuaristas, está em campanha aberta pela nomeação de Nabhan. Esta semana, apoiadores seus fizeram circular em grupos de WhatsApp de integrantes da UDR um pedido de doações aos associados, para que a entidade financie a compra de “um espaço nobre na mídia” em defesa da indicação de Garcia para o ministério. A mensagem instrui os associados sobre como proceder. “No grupo da UDR já temos 5 mil [reais].”

A mensagem irritou a turma que não aceita o nome de Nabhan Garcia. “Ele é o atraso”, me disse um grande produtor rural ligado ao setor de soja. Os produtores exportadores defendem um nome técnico para o ministério, que tenha boa relação com o setor e boa imagem no mercado internacional. “O Brasil já tem uma péssima imagem lá fora. É preciso colocar alguém que tenha o nome mais comprometido com uma agricultura sustentável”, me disse.

A bancada ruralista foi uma das primeiras a embarcar na candidatura de Bolsonaro e, por essa razão, ele tem tomado cuidado para não se indispor com o grupo – que, até o momento, continua fechado com ele no Congresso. Mas a insistência de Nabhan Garcia tem causado constrangimentos ao setor e ao futuro presidente. Garcia decidiu bater de frente com Lorenzoni. Esta semana ele fez uma postagem agressiva nos grupos de WhatsApp da UDR, acusando o futuro ministro de despreparo, além de chamá-lo de “pavão” e de agir de forma “deselegante e inapropriada”. Assinada por “Nabhan Garcia / UDR”, a mensagem diz o seguinte:

“Minha ponderação e recusa em entrar em confronto com alguém que está simplesmente avançando em terreno alheio e nem tampouco de sua competência e compromisso com nossa classe produtora rural, como o que fez o deputado Onyx Lorenzoni quando veio de forma deselegante e inapropriada à sua pessoa e cargo que assumirá apenas a partir de primeiro de janeiro, se é que assumirá mesmo, vir afirmar que o deputado Jerônimo Goergen não será o ministro da Agricultura, nome da indicação efetiva da base produtora de todo o Brasil, conforme compromisso público e explícito do nosso presidente agora eleito.”

Em seguida, passa a atacar o futuro ministro da Casa Civil. “Já vi muito pavão virar espanador, pois a prepotência, arrogância e despreparo para pessoas que não sabem conviver com o poder é algo que não combina em nada com a humildade e muito menos com a verdade.”

Administrador de fazendas do interior de São Paulo, Garcia ganhou a simpatia de Bolsonaro durante manifestação do setor, em abril deste ano. À época, ele chamou o então deputado a subir no caminhão de som dos ruralistas, em frente ao prédio do Supremo Tribunal Federal, para discursar para os representantes do setor que protestavam contra a cobrança de uma nova taxa. Ficaram amigos a ponto de ele ser uma das pessoas a frequentar com mais assiduidade a casa do deputado na Barra da Tijuca. Quando Bolsonaro recebeu alta no Hospital Albert Einstein (onde foi atendido para se tratar do atentado de que fora vítima em Juiz de Fora) e voltou para o Rio de Janeiro, Garcia apareceu, sorridente e à vontade, em uma foto caseira ao lado de um Bolsonaro ainda convalescente.

Parte do agronegócio vê com maus olhos essa proximidade. “Ele fica ao lado de Bolsonaro tentando vender a imagem de que representa o setor”, me disse um ruralista. “Tudo o que não queremos para o ministério”, disse. Até associados da UDR, que foi poderosa no passado, mas hoje é uma entidade de pouca visibilidade, reclamam de seu presidente. Um deles me disse que Garcia não presta contas do dinheiro que os associados pagam para a entidade. “Apesar da nossa insistência, ele se recusa a informar como vem empregando as nossas contribuições.” A briga deve esquentar até que o nome do novo ministro seja finalmente anunciado.

Ao saber do vazamento no WhatsApp, Nabhan Garcia afirmou à piauí que passou a mensagem para um grupo fechado e não para a imprensa. E me disse que, em razão do vazamento, sairia do grupo. “Não posso ficar onde existem pessoas conspirando contra mim.”

Segundo ele, essa mensagem não poderia ter sido vazada. Mas voltou a criticar o que considera uma intromissão indevida de Lorenzoni nas decisões do setor. “Não cabe ao ministro da Casa Civil fazer ou barrar indicações. Isso é prerrogativa do presidente da República”, disse. ”O Lorenzoni extrapolou de suas funções.”

Garcia disse ainda não ter pretensões de ser ministro, tanto que indicou o nome de Jerônimo Goergen. Disse que as notícias veiculadas pela imprensa de que ele pleiteava o posto de ministro são “especulação descabida”. “A prerrogativa é do presidente da República. Não autorizo ninguém a falar em meu nome. Pergunte ao Bolsonaro se alguma vez eu fiz algum pedido neste sentido”. E completou dizendo que ele continuava próximo ao futuro presidente, como conselheiro do agronegócio.

Nabhan me contou que, no momento em que eu liguei, por volta das dez e meia da noite, estava reunido com várias entidades do setor do agronegócio que pressionam o governo para participar da transição. “Não estamos falando de indicação para ministério. Estamos falando de propostas para o governo. Não é o senhor Lorenzoni que vai dizer para os ruralistas o que é melhor para o setor.”

CONSUELO DIEGUEZ

Consuelo Dieguez, repórter da piauí desde 2007, é autora da coletânea de perfis Bilhões e Lágrimas, da Companhia das Letras

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