Por Luciana Marques, professora da Faculdade de Educação/UFRGS

Bloqueio, isolamento, distanciamento social, pandemia, novo normal. Webinário, live, máscara, drive-thru, tele-entrega, trabalho e ensino remoto. Tantas palavras entraram na nossa rotina e novas experiências para assimilar. Nosso dia a dia foi alterado, alguns projetos perdidos e muitas dúvidas e incertezas. Nossa mente se agita a pensar em como ficará a vida após a pandemia, como será o novo normal? Por vezes ela se entristece, vai para o passado, para os sonhos que se perderam com o distanciamento social, para a saudade de um mundo conhecido. Nossa mente se movimenta em padrões habituais sem que tenhamos a menor noção de que mundo mental é esse que vive em nós, do que se alimenta, como nos arrasta sem que tenhamos controle.

Nem na nossa educação escolar, universitária ou familiar tivemos extensa orientação de como lidar com a nossa mente, e é com ela que teremos que lidar durante toda a vida. Nem ao menos sabemos que temos uma mente que comanda boa parte do espetáculo/drama/comédia/tragédia que se descortina no nosso dia a dia. Socialmente nos habituamos a dizer que há realmente uma realidade lá fora que é a causadora disso que acontece aqui dentro e que, se controlarmos a realidade, estará tudo certo. Geralmente quanto mais sólida essa realidade é percebida e quanto menor a liberdade que temos, maior é o sofrimento.

Esse foi um aprendizado que pude comprovar trabalhando com pacientes psiquiátricos há uns anos atrás. Quando nossa mente se agita, ela perturba o sono, altera toda a delicada bioquímica do organismo e pode gerar doenças. Quando a tristeza e a desorientação aumentam, o corpo também sofre, ficamos lerdos, não conseguimos pensar direito ou ficamos irritados por precisar dar conta de tarefas. Isso que chamamos corpo, emoções e mente são rótulos totalmente arbitrários para podermos visualizar certos fenômenos com maior clareza, mas que na nossa experiência são muito difíceis de diferenciar. E, de fato, na prática eles são “um”.

Poderíamos prevenir muitos de nossos padeceres educando gentilmente a nossa mente (corpo e emoções estão juntos) não a mimando demais, mas também não exigindo dela o que não nos pode dar agora. Para isso precisamos conhecê-la, não sermos demasiado subservientes às demandas externas nem às internas, mas também não as ignorando nem reprimindo.

Ajuste difícil? O processo corpo-emoções-mente é muito fluido e impermanente, intrincado com toda a rede em que está inserido para que a gente consiga acompanhá-lo e conhecê-lo detalhadamente. Simplesmente não dá tempo, a menos que ficássemos 24 horas só prestando atenção ao que surge na nossa mente. Então, uma espécie de plantonista interno vigilante precisaria estar observando tudo isso e respondendo com bom senso para que o tão desejado equilíbrio se estabeleça. Bom senso é uma palavra importante aqui, pois nosso organismo se rebela com controle excessivo.

Mas quando nossa rotina se altera e o mundo parece vir abaixo, então já é tarde demais pra criar um ambiente físico e mental respirável. O delicado equilíbrio entre corpo, emoções e mente só pode ser alcançado pelo exercício regular e pela vontade de quem está do lado de dentro. Isso em condições estáveis, sejam elas internas ou externas. Numa pandemia não estamos em uma situação estável. Muitos de nós passam longos períodos sem uma estabilidade para poder parar, olhar para dentro e se cuidar. A tríade saúde física, mental e espiritual – que foi o tema do meu doutorado no ano de 2000 – parece tão óbvia quando estudada teoricamente, mas é tão difícil de harmonizar em nossa vida cotidiana. Muitos fatores também não estão ao nosso alcance.

As informações de quase tudo estão todas disponíveis para a maior parte das pessoas via Google. Mas como escolher as melhores, as que de fato nos servem? E quais são as que melhor nos servem AGORA? Para saber o que nos serve, precisamos ter consciência de quem somos e do que queremos. Como respondeu o coelho para Alice (no país das maravilhas): se você não sabe para onde vai, qualquer caminho serve.

Então, nessa complexidade aparentemente simples, assimilamos conteúdo, mas não aprendemos a buscá-lo, no sentido de onde encontrá-lo, quais as melhores fontes. Também precisamos interpretá-lo e colocá-lo em prática (de que serve um conhecimento engavetado?). Depois precisamos de acompanhamento, orientação e algum estímulo nessa aplicação. Essas funções podem ser desempenhadas por pais atentos e professores dedicados. Nem todos, contudo, temos essa sorte. Em geral, você é seu próprio professor, seu próprio pai e mãe, seu médico, seu conselheiro –, o próprio algoz e também a vítima. Bem, ao menos você é a pessoa que melhor conhece a si própria neste mundo. Por favor, não se abandone!

O delicado equilíbrio corpo-emoções-mente em geral é o resultado de hábitos e condições anteriores. Colhemos hoje o que plantamos antes. Ele também não dura muito, pois o ser humano é um sistema aberto a inúmeras influências (um vírus que pode ser mortal para uma pessoa é uma “gripezinha” para outra). Mas uma visão panorâmica da nossa vida que parta de certo autoconhecimento pode ajudar a escolher uma direção, um sentido que nos dê estímulo para não desistir.

A boa notícia é que nosso organismo como um todo aprende até o último dia de vida, e a plasticidade cerebral faz de nós algo vivo e totalmente aberto e reagente a intervenções. Dessa forma, sempre dá pra começar de qualquer ponto em que estejamos para seguir por um caminho mais condizente com o que nos harmoniza e alegra, mesmo em meio a uma pandemia.

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